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Excesso de Informação
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Introdução: a era da informação
O futurólogo Alvin Toffler declarou em seu livro The Third Wave [1] que nossa sociedade sofreu três mudanças principais ao longo do tempo.
Inicialmente, segundo o livro, todos os indivíduos eram nômades. Era necessário caçar para se alimentar e mudar-se para outros locais quando a caça escasseava. Nesse sistema, pessoas precisavam unir forças para derrubar presas maiores e costumavam se reunir ao redor de grandes caçadores.
Com o surgimento e desenvolvimento da agricultura, a sociedade passou pela primeira das mudanças, ou primeira onda. Tendo a habilidade de cultivar o próprio alimento, os indivíduos não mais precisavam ser nômades e não precisavam ser necessariamente bons caçadores. Pessoas passaram a ter um estilo de vida cíclico, baseando-se nos períodos de cultivo e fartura.
A segunda onda surgiu com a Revolução Industrial. Máquinas substituíram o homem em trabalhos pesados e a indústria passou a se basear na produção em massa. A sociedade refletiu tais mudanças organizando-se em grandes corporações regidas por sistema de hierarquias e burocracia.
Finalmente, para reagir ao rápido desenvolvimento da tecnologia e ao enorme crescimento da sociedade, tanto em tamanho como em complexidade, veio a terceira onda: a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade da informação. Nesse novo sistema, a tecnologia tornou-se uma ponte entre produtores e consumidores e os indivíduos passaram a se organizar em grupos fluidos, que tentam se adaptar conforme a situação exige.

Dentro desse novo modelo, onde há maior ênfase em comunicação e adaptação, pode-se afirmar que o material mais valioso, a principal moeda corrente, é a informação. Diante desse fato, um dos termos utilizados pelo autor para descrever o período após a terceira onda é "era da informação".
O livro de Alvin Toffler foi publicado em 1980, quando a Internet ainda não era muito conhecida e o lançamento da World Wide Web ainda levaria dez anos para acontecer (Mais...). Quando a Internet se popularizou na década de 90, as características da terceira onda se acentuaram ainda mais e o termo "era da informação", que já não era novo quando The Third Wave foi escrito, espalhou-se. Hoje é comum ouvirmos especialistas, ou mesmo pessoas em conversas mundanas, declararem que "vivemos na era da informação".
Dentre aqueles que publicaram trabalhos recentes utilizando o termo nesse contexto, destaca-se o sociólogo espanhol Manuel Castells em seu impressionante trabalho The Information Age: Economy, Society and Culture, publicado entre 1996 e 1998. Neste trabalho, dividido entre os volumes The Rise of the Network Society [2], The Power of Identity [3] e End of Millenium [4], Castells analisa a interconexão e o poder de adaptação da sociedade resultantes da globalização da informação.
O mais interessante, porém, é observar como Toffler e outros especialistas conceberam a idéia da existência de uma era da informação antes mesmo da explosão da Internet, e como hoje as observações que esses autores fizeram não só permanecem corretas como talvez estejam muito mais evidentes do que eles próprios esperavam. Um exemplo é o livro The Coming of Post-Industrial Society [5], escrito em 1973 pelo sociólogo Daniel Bell.

Neste livro, que é um dos primeiros trabalhos, talvez o primeiro, a utilizar o termo "era da informação", Bell afirma que o processo de produzir informação é ainda mais valioso diante do fato de que reproduzir informação é um processo simples e barato. Esse fato, que já era verdade na época das fitas magnéticas e impressoras analógicas, ficou muito mais acentuado quando o desenvolvimento da Internet permitiu que pessoas a quilômetros de distância trocassem informações instantaneamente.
Por exemplo, a metodologia Bazar, formalizada por Eric Raymond para descrever o processo de desenvolvimento do sistema operacional Linux, baseia-se na comunicação rápida entre muitos desenvolvedores. A eficiência dessa metodologia deriva-se do fato de que um número irrestrito de colaboradores pode rapidamente reproduzir e comentar o que foi feito por outro. Na verdade, o próprio conceito de produção colaborativa da commons-based peer production idealizada por Yochai Benkler é, talvez, o maior representante da era da informação, pois é um conceito que valoriza ao máximo a troca de informações, evitando a barreira imposta pela propriedade.
Resumindo, estamos vivendo hoje em uma era onde há muita informação, muitas fontes de informação, e muitos que precisam de informação. Em um período como esse, é impossível deixar de considerar uma questão importante: não estaria a nossa sociedade atual lidando com informação demais?
Para responder a essa pergunta, é preciso saber o que estamos considerando como informação. Segundo uma definição presente no verbete Information da Wikipedia em inglês, uma possível interpretação é:
"Informação é uma mensagem, algo a ser comunicado entre um emissor e um receptor, em oposição a barulho, que é algo que inibe o fluxo da comunicação ou cria mal-entendidos. Se informação é vista meramente como uma mensagem, ela não precisa ser correta. Pode ser uma mentira, ou apenas o som de um beijo."
Esta definição certamente representa enormes problemas para a chamada era da informação. A informação, para existir, não precisa ser correta. Ela não precisa ser necessária. Na verdade, não precisa sequer ser relevante. Portanto, quando nos referimos a este período como um período no qual a informação é o maior dos bens, certamente devemos levar em conta a importância da capacidade de separar boa informação de má informação.
Infelizmente, o enorme desenvolvimento da tecnologia e, principalmente, a maneira como a sociedade utiliza esse desenvolvimento para aumentar a quantidade e a velocidade da transmissão de informação, não parecem respeitar tal separação. Ainda em 1982, John Naisbitt e Patricia Aburdene chamaram a atenção para esse problema em seu trabalho Megatrends [6], onde alertaram que a sociedade atual "está se afogando em informação mas faminta por conhecimento".
Neste trabalho nós abordaremos o impacto do excesso de informação na era da informação, ou seja, como a sociedade atual lida com o fato de que diariamente ela recebe mais informação do que pede, precisa ou deseja.
A primeira seção, Aceitar ou rejeitar? Há opção?, aborda a questão de como somos submetidos a um enorme volume de informação todos os dias e, conseqüentemente, somos obrigados a absorver coisas que não pedimos.
Em Separando o joio do trigo, discutimos a capacidade que um indivíduo possui para avaliar a informação que absorve e decidir o que é relevante e o que não é. Às vezes essa capacidade sofre influências externas e internas.
O foco da seção seguinte, De qual fonte devemos beber?, é como se decidir entre as diversas fontes diferentes para uma mesma informação.
Finalmente, a seção Informação, desinformação e censura aborda a existência de informações questionáveis ou mesmo ilegais, e a questão de como é possível controlar essa informação sem restringir a liberdade de expressão.
Aceitar ou rejeitar? Há opção?
Diariamente, somos submetidos a uma grande quantidade de informação. Nossa atenção é freqüentemente disputada por notícias e propagandas transmitidas por rádios, outdoors, folhetos e outros veículos da mídia.

Diante desse enorme fluxo de informação, é impossível deixar de pensar no quanto a opção de receber ou não uma certa informação está em nossas mãos. Ao longo do dia, podemos ouvir dezenas de vezes uma mesma notícia, mesmo que já saibamos todos os detalhes dela. Em situações ainda piores, a notícia que tanto ouvimos não chega nem a ser algo que nos interesssa.
Não há como negar que esse fluxo constante de informação faz com que muitas vezes uma pessoa ouça notícias importantes que não buscaria por conta própria. Entretanto, a questão principal é a existência ou não de escolha. Independentemente de uma informação ser importante ou relevante, uma pessoa deveria ter liberdade para escolher se deseja ou não recebê-la.
Infelizmente, isso não acontece. Simplesmente ao estar em uma rua, um indivíduo é submetido a informações que, após ter recebido, desejaria não ter recebido. Essas informações podem ser um enorme outdoor, uma chuva de folhetos eleitorais ou mesmo o anúncio de um vendedor de pamonha.
Como conseqüência, uma grande parte dessa informação se traduz em poluição visual e sonora: além de não contribuir em nada para o conhecimento do indivíduo, ainda afeta negativamente sua saúde. Alguns estudos indicam que a poluição visual afeta a capacidade de concentração e raciocínio (Mais...) e que a poluição sonora causa, entre outras coisas, distúrbios de sono (Mais...).
O exagero na publicidade pode, inclusive, ter influência negativa sobre as empresas que as veiculam. Estudos indicam que quando um cliente em potencial sente que está recebendo propaganda excessiva, ele tende a associar a sensação de incômodo ao produto. Em outras palavras, o efeito é exatamente o oposto do que o anunciante deseja. Segundo uma pesquisa feita em 2004 pela Yankelovich Partners, o desconforto descrito é evidente:
- 54% evitam comprar produtos que sufocam o cliente com publicidade;
- 60% admitem que sua opinião sobre a propaganda piorou;
- 61% acham exagerado o volume de publicidade ao qual estão expostos;
- 65% dizem que são freqüentemente bombardeados com publicidade;
- 69% querem produtos e serviços que bloqueiem as ações de marketing.
As evidências indicam que a resposta para a pergunta feita no título desta seção infelizmente é negativa. Somos constantemente expostos a informações que não temos o direito de rejeitar. Nossa única opção é saber assimilá-la e filtrá-la adequadamente, de acordo com o que nossas necessidades pedem.
Informação na Internet
O problema da poluição visual, que já era evidente e polêmico antes mesmo da popularização da Internet, não demorou para se tornar uma das maiores questões referentes à World Wide Web e meios similares.

O mundo virtual testemunhou uma explosão publicitária sem precedentes no mundo real, motivada principalmente pelo baixo custo para se postar um anúncio. Surgiram dezenas de serviços de hospedagem que disponibilizam espaço para um usuário criar páginas, desde que elas contenham anúncios selecionados pelo serviço. Uma busca no Google por "excesso de publicidade" revela vários depoimentos de usuários que mudaram de servidor porque o antigo exibia muitas propagandas, ao ponto de reduzir o número de visitas.
O excesso de informação mais nefasto que surgiu na Internet, no entanto, é o spamming, o envio em massa de mensagens não-solicitadas. Em um curto espaço de tempo, o spamming passou de mero incômodo a uma das principais preocupações e fonte de prejuízos do usuário da Internet. Segundo pesquisas, cerca de 90% das mensagens eletrônicas enviadas atualmente são spam.
A popularização da Internet aumentou muito a velocidade e quantidade de informação transmitida diariamente, e esse fato aumentou exponencialmente os problemas causados pela sobrecarga de informação. O mundo virtual, que para muitos representava um refúgio contra os problemas do mundo real, acabou se tornando um reflexo deste em muitos aspectos. A mesma pessoa que perde tempo jogando cartas de mala direta no lixo perde ainda mais tempo configurando filtros anti-spam e certificando-se de que eles estão funcionando adequadamente. Uma pessoa que se estressa diariamente com o excesso de outdoors nas ruas de sua cidade acaba enfrentando o mesmo problema em casa, quando inúmeros pop-ups surgem em seu navegador.
Outro fator importante relacionado à explosão da Internet foi a proliferação de páginas pessoais e blogs: nunca foi tão fácil para um indivíduo difundir suas opiniões como hoje. Como conseqüência, nunca foi tão fácil para um indivíduo receber dezenas de opiniões diferentes como hoje.
Mensagens subliminares
A definição de mensagem subliminar exige um nível razoável de abstração. Grosso modo, uma mensagem subliminar é uma mensagem que só pode ser capturada por níveis da percepção que estão abaixo do limite normal e, conseqüentemente, só pode ser percebida em nível inconsciente. Um exemplo desse tipo de mensagem é uma imagem que aparece e desaparece tão rapidamente que uma pessoa comum não é capaz de perceber que ela foi exibida, apesar de o olho registrar tal imagem no cérebro normalmente.

Um dos mais famosos livros a abordar o uso de mensagens subliminares é Admirável Mundo Novo [7] de Aldous Huxley. Nesse livro, Huxley descreve uma sociedade rigidamente controlada, na qual a aparência das pessoas é manipulada através da genética e o papel de cada indivíduo na sociedade é definido antes mesmo de eles nascerem. Para tentar tornar a educação mais eficiente, cientistas tentam fazer com que as pessoas aprendam ainda quando bebês, através de mensagens pré-gravadas e reproduzidas repetidamente nos berçários.
A idéia fracassa porque eventualmente se descobre que as pessoas que foram submetidas a esse processo memorizam a informação mas não conseguem assimilá-la e transformá-la em conhecimento propriamente dito. Entretanto, apesar de falharem como forma de educação, as mensagens pré-gravadas acabam funcionando como um meio de obrigar as pessoas a memorizarem frases que, quando repetidas, estimulam o conformismo com a sociedade.
O estímulo do inconsciente foi abordado fora da ficção no livro The Hidden Persuaders [8] de Vance Packard. Nesse trabalho de 1957, que popularizou o termo "mensagem subliminar", o autor detalhou um estudo feito por James Vicary, no qual anúncios de pipoca e coca-cola foram inseridos entre as cenas de um filme, mas em uma velocidade suficientemente alta para que ninguém os percebesse em nível consciente. Segundo Vicary, as vendas de pipoca e coca-cola aumentaram substancialmente nos dias em que esses anúncios foram utilizados. The Hidden Persuaders causou enorme reação no público e muito foi questionado a respeito da ética envolvida nesse tipo de publicidade, capaz de atingir o público sem que este esteja ciente.
Apesar de o próprio Vicary ter admitido em 1962 que o suposto estudo foi forjado, a paranóia em relação a mensagens subliminares cresceu e atingiu seu auge em 1973, quando Wilson Bryan Key lançou o livro Subliminal Seduction [9], no qual declarava que mensagens subliminares eram freqüentemente utilizadas em publicidade. Em pouco tempo elas se tornaram um dos tópicos principais de teorias conspiratórias a respeito de manipulação.

Em um caso recente, o Partido Democrata dos Estados Unidos acusou os publicitários do então candidato à presidência George W. Bush de utilizar mensagens subliminares em uma propaganda eleitoral. Na propaganda em questão, em uma cena onde aparece a palavra bureaucrats (burocratas) para se referir aos democratas, a palavra rats (ratos) aparece por uma fração de segundo. Os efeitos que o recurso teve na eleição são desconhecidos.
Na verdade, um dos maiores problemas na questão do uso de mensagens subliminares, que permanece polêmica até hoje, é o fato de não existirem provas concretas e respeito de sua eficácia. Alguns acreditam que tais mensagens são inúteis diante do fato de que não é possível assimilá-las adequadamente. Outros temem a influência que um nome de marca, por exemplo, pode ter sobre as nossas decisões quando ele está registrado em nosso inconsciente.
Uma coisa, porém, é certa: mensagens subliminares representam informações que não sabemos estar recebendo. Por esse motivo, aceitar ou rejeitar é uma opção que está completamente fora de nosso controle.
Separando o joio do trigo
Lidar com a grande quantidade de informação que recebemos em um curto espaço de tempo é um dos maiores desafios criados pela era da informação. Mesmo supondo que estejamos interessados em todas as informações transmitidas, o que já vimos não ser verdade na seção anterior, seu imenso volume impossibilita-nos de absorver todo o conteúdo apropriadamente.
Muitas vezes, conseguimos apenas memorizar alguma expressão, palavra ou imagem, sem considerar a mensagem que elas traziam. Isso costuma acontecer com os jingles constantemente repetidos em programas de rádio e televisão: é comum encontrar pessoas que sabem certas músicas publicitárias de cor, mas não fazem idéia de qual é o produto ao qual a propaganda em questão se refere. E, se soubessem, provavelmente não se interessariam.
Outras vezes, as informações são superficiais ou estão muito fragmentadas, por exemplo quando noticiários anunciam que "a bolsa caiu" ou "os juros baixaram". Geralmente, sem maiores detalhes da notícia, ou mesmo o conhecimento necessário, a pessoa que ouve a notícia é incapaz de analisá-la por conta própria, limitando-se a associá-la a adjetivos, seguindo a opinião dos outros: a queda da bolsa é "ruim" e a baixa dos juros é "boa".
Um dos pontos mais preocupantes, no entanto, é que raramente há garantias de que a informação é verdadeira. O escritor George Orwell já alertava para esse problema em seu livro 1984 [10], no qual retratou uma sociedade manipulada pelo controle da informação e da verdade.

Torna-se essencial, então, fazer uma seleção das informações recebidas, de forma a captar apenas aquelas que tenham alguma relevância ou utilidade e pareçam confiáveis.
Essa seleção, embora possa parecer uma tarefa simples e corriqueira, revela-se extremamente árdua, pois vários recursos empregados pelos veículos de comunicação têm como objetivo reduzir nossa capacidade de discernimento e até nossa liberdade de opção. Entre tais recursos, merecem ser citados a manipulação das informações para que se tornem mais atraentes e o uso de publicidade que apela para o subconsciente das pessoas com sugestionamento e repetição.
Os lucros da alienação
Dois dos principais motivos que impulsionam a manipulação de informações são poder e dinheiro. Quanto mais instigante for a informação para seu receptor, maior é a chance de obter dele alguma reação. Quanto mais persuasiva for uma propaganda dirigida a um possível cliente, maior será sua vontade de consumir, de comprar um produto, de contratar um serviço.

Evidentemente, existem informações que podem ser mais lucrativas que outras. E, graças aos altos investimentos que elas recebem, são elas que acabam tendo o maior destaque nos veículos de comunicação.
Infelizmente, o grande espaço que lhes é atribuído acaba por deixar em segundo plano informações que são possivelmente mais relevantes, mas não têm o mesmo potencial de serem usadas para gerar lucro. Essa inversão de valores, dificilmente percebida por uma sociedade historicamente passiva, provoca alienação. Por exemplo, não é raro encontrar uma pessoa que conheça os nomes de todos os participantes de um programa famoso de televisão, mas não é capaz de se lembrar dos nomes dos candidatos em que votou na última eleição.
Em um episódio lamentável, que se tornou símbolo dessa situação, a emissora Globo dedicou em 1998 uma reportagem de dez minutos a respeito do nascimento da filha da apresentadora Xuxa. A duração média de reportagens especiais era quatro. No mesmo programa, o anúncio de que a inflação em São Paulo havia atingido nível recorde ocupou meros 20 segundos (Mais...).
Ansiedade por informação
Como mencionado anteriormente, somos incapazes de absorver e filtrar o grande volume de informações que nos é enviado. Um aspecto muito interessante desse problema é que as pessoas muitas vezes estão cientes desse fato e de sua impotência diante dele, o que pode provocar diversos efeitos.
Richard S. Wurman, em sua conhecida obra Information Anxiety [11], descreveu o distúrbio que definiu como ansiedade por informação:
"A ansiedade por informação é causada pelo sempre crescente abismo entre o que compreendemos e o que achamos que deveríamos compreender. É o buraco negro entre dados e conhecimento, que ocorre quando a informação não nos diz o que queremos saber, ou precisamos saber."
Essa ansiedade pode ser causada pela falta de informação ou pelo excesso de informação. Por exemplo, uma simples pesquisa com um mecanismo de busca da Internet pode trazer centenas e até milhares de referências. Como geralmente usamos apenas algumas delas, temos a sensação de conhecer uma pequena parte do que deveríamos, causando ansiedade e frustração.
De certa forma, pode-se dizer que a alienação mencionada na seção anterior tira proveito dessa ansiedade: as constantes propagandas a respeito de programas como reality shows, e sua permanente exposição na mídia, aos poucos convencem o público de que é necessário estar a par do que acontece nesses programas. Lentamente eles são levados a acreditar que tal informação é importante, necessária para que seu conhecimento não fique defasado.
Síndrome da fadiga de informação
Não saber lidar com todo o volume de informações que recebemos não somente causa distúrbios psicológicos, como visto na seção anterior, mas também pode ter impacto significativo na saúde e nos negócios.
Em 1996, a Reuters Business Information realizou uma pesquisa com 1300 gerentes de diferentes locais, como Estados Unidos, Reino Unido, Hong Kong e Cingapura sobre a sobrecarga de informações. Entre outros resultados:
- 49% reconheceram que freqüentemente não sabiam lidar com a quantidade e volume de informações que recebiam todos os dias;
- 38% disseram que perdiam um tempo significativo tentando identificar informação útil no grande volume de informações recebidas;
- 31% reclamaram que recebiam muita informação não-solicitada.
Essa interessante pesquisa, entitulada Dying for Information, foi analisada pelo psicólogo David Lewis, que chamou de síndrome da fadiga de informação os efeitos físicos, psicológicos e sociais da sobrecarga de informações sobre um indivíduo. Alguns desses efeitos são: estresse, tensão, distúrbios de sono, problemas digestivos, dificuldade de memorização, irritabilidade (Mais...).
A sobrecarga de informações, por causar distração e atraso em decisões, também afetaria organizações segundo a pesquisa, tornando-as menos eficientes e lucrativas. Isso pode representar um grave problema, principalmente considerando-se que tal situação pode tornar os funcionários ainda menos aptos a receber informação, agravando-a cada vez mais, de maneira cíclica.
De qual fonte devemos beber?
Algo que certamente não falta para a sociedade atual são fontes de informação. Mas isso representa um grave problema quando várias dessas fontes apresentam a mesma informação, e de maneiras diferentes.

Durante o dia, uma pessoa enfrenta esse problema de diferentes formas: vários jornais estampando a mesma manchete, diferentes canais de televisão veiculando a mesma notícia, pessoas defendendo lados distintos de uma discussão, diversas referências relevantes para um mesmo tema de pesquisa.
Esse problema atinge um patamar mais nefasto na área dos noticiários. Como a maioria dos veículos da mídia dependem diretamente da audiência para aumentar os lucros, eles normalmente utilizam todos os recursos necessários para chamar a atenção do público. Conseqüentemente, um dos recursos mais comuns é reescrever notícias de modo a torná-las mais chamativas. Infelizmente, muitas vezes esse processo implica na distorção da informação original, tornando-a mais tendenciosa e falsa.
Apesar de menos freqüente, o mesmo problema atinge também a área acadêmica. São conhecidos alguns casos de cientistas que, na ânsia por fama e reconhecimento, divulgam com alarde suas descobertas recentes antes que outros especialistas possam dar um parecer a respeito da verdadeira relevância do que foi descoberto. Recentemente, um arqueólogo anunciou que havia descoberto as ruínas de um local que supostamente evidenciaria a existência de Jesus Cristo. Na verdade, apesar de essa possibilidade não estar descartada, uma análise cuidadosa revelou que pouco pode ser afirmado no momento.
Até mesmo estudantes de colegial são grandes vítimas dessa situação. Sempre que a época do vestibular se aproxima, proliferam em bancas e livrarias os milhares de "cursos rápidos" e "resumos" que prometem ensinar todo o conhecimento necessário em semanas ou mesmo dias. Alguns deles se baseiam em métodos válidos de ensino, mas muitos outros são inúteis.
Fontes promissoras de informação
Em O Oráculo Bibliográfico: Sonhos de um Pesquisador, o professor Imre Simon idealiza um assistente virtual capaz de apresentar a qualquer hora toda a literatura científica, sempre com "rigorosa neutralidade".
Tal oráculo ainda não existe, mas alguns serviços presentes na Internet evidenciam que sua existência é uma idéia cada vez mais viável. Um grande exemplo é o Google, um serviço de busca capaz de catalogar bilhões de páginas da Internet de forma surpreendentemente eficiente, ordenando automaticamente os documentos de acordo com sua relevância. Recentemente, foi lançado também o serviço Google Scholar, que se propõe a ser uma biblioteca virtual de literatura científica. O Google constantemente lança novos serviços, e todos se destacam pela velocidade e abrangência.
Dentre as fontes de informação que surgiram na Internet nos últimos tempos, sem dúvida destaca-se a Wikipedia, uma enciclopédia desenvolvida através da produção colaborativa. O diferencial da Wikipedia é que ela é uma enciclopédia cujos artigos podem ser editados por qualquer um. Apesar dos óbvios riscos de vandalismo, a tendência é que seus artigos melhorem gradativamente através de colaborações múltiplas e irrestritas, até se tornarem eventualmente uma fonte de informação completa, abrangente e confiável.
Em termos matemáticos, pode-se dizer que a tendência da Wikipedia é convergir para algo como uma enciclopédia perfeita. Sob uma perspectiva realista, sempre haverá algumas falhas e uma eventual ausência de informações, mas espera-se que a proporção desses problemas em relação a todo o conteúdo diminua ao longo do tempo. A perfeição completa e absoluta é um ideal talvez inatingível, mas estar a uma distância infinitesimal dela parece ser possível, e certamente é mais do que suficiente para muitos dos pesquisadores.
Até pouco tempo atrás, estávamos submetidos a fontes de informação que eram o fruto do trabalho de especialistas e, portanto, sujeitas aos caprichos destes. Os últimos anos nos presentearam com duas alternativas surpreendentemente eficientes: as fontes construídas automaticamente e as fontes construídas colaborativamente. E a evolução destas fontes é tão impressionantemente rápida e evidente que permite nos dar ao luxo de pensar que o oráculo bibliográfico está muito mais próximo do que se pensa.
Enciclopédias baseadas na fé
Em um artigo de Novembro de 2004 entitulado The Faith-Based Encyclopedia, o editor Robert McHenry, antigo vice-presidente da Enciclopédia Britânica, questionou a qualidade dos artigos presentes na Wikipedia.
Entre outros argumentos, o trabalho de McHenry alega que o suposto processo de melhorar gradativamente um artigo através da contribuição de muitos colaboradores pode não funcionar porque "o conhecimento de um indivíduo pode ser a ignorância de outro". Em poucas palavras, ele argumenta que não há nada impedindo que um artigo possa gradativamente piorar.
Em uma conclusão ligeiramente provocativa, o último parágrafo de The Faith Based-Encyclopedia compara a Wikipedia a um banheiro público:
"O usuário que visita a Wikipedia para aprender sobre algum assunto, para confirmar algum fato, está na mesma posição de alguém que visita um banheiro público. Ele pode estar obviamente sujo, de forma que o usuário sabe que deve tomar bastante cuidado, ou pode parecer completamente limpo, de forma que ele é levado a ter uma falsa sensação de segurança. O que o usuário certamente não sabe é quem usou o local antes dele."
Muitos dos argumentos de McHenry são de fato válidos: não há nenhuma garantia a respeito das qualificações dos usuários que alteram artigos da Wikipedia e, por causa disso, encontrar erros é perfeitamente possível.
Entretanto, não se pode ignorar que muitos dos usuários são qualificados o suficiente, e é neles que a Wikipedia confia para corrigir eventuais erros. O próprio McHenry é um exemplo: no artigo, o editor apresenta, como evidência das falhas da Wikipedia, erros na biografia de Alexander Hamilton. Ele, porém, não os corrige, mesmo tendo à sua disposição todos os recursos para fazer isso. Ao deixar de corrigir os erros que percebeu, McHenry ignorou o maior princípio da Wikipedia: a produção colaborativa. Dessa maneira, ele acabou se tornando um contra-exemplo dos próprios argumentos.
Mantendo a mesma analogia utilizada por Robert McHenry, devemos olhar o "banheiro privado" da Enciclopédia Britânica com um mínimo de desconfiança. Pessoas que visitam o "banheiro público" da Wikipedia podem sujá-lo, é verdade, mas a grande vantagem é o fato de que as pessoas que não gostam de sujeira têm a sua disposição um balde e esfregão para limpá-la. No banheiro da Britânica, o balde e o esfregão só podem ser usados pelos donos, e mesmo assim só depois de um longo processo burocrático.
De certa forma, tanto a Enciclopédia Britânica como a Wikipedia são enciclopédias baseadas na fé. Para confiar na Enciclopédia Britânica, devemos ter fé em um grupo de especialistas que, apesar de terem excelente reputação, ainda são humanos e ainda podem cometer erros. Para confiar na Wikipedia, devemos ter fé de que o número de pessoas que a usam e não gostam de sujeira é maior do que o número de pessoas que gostam. A segunda hipótese certamente parece ser mais razoável do que a primeira.
Informação, desinformação e censura
Um dos maiores perigos do excesso de informação é a existência de informação maliciosa, a chamada desinformação, capaz de enganar ou confundir a população. Muitas informações que uma pessoa recebe podem ser boatos não-confirmados, mentiras, ou dados incompletos que, quando assimilados fora de contexto, podem resultar em interpretações distorcidas.

Na Internet, existem muitas informações que podem ser consideradas até mesmo perigosas. São conhecidos os casos em que pais descobriram que os filhos acessavam constantemente certos sítios com ensinamentos de como fabricar bombas ou páginas de grupos de ódio contra minorias. A título de curiosidade, quando procurávamos referências para este trabalho, encontramos acidentalmente através do Google um sítio chamado Saiba aqui como matar uma pessoa que você odeia!, que revela métodos verdadeiros para assassinar uma pessoa sem deixar pistas.
Um fato que certamente não pode ser desconsiderado é que a informação é uma poderosa arma: não se pode subestimar o efeito que determinadas informações podem ter sobre a população e o impacto que a população, influenciada por elas, pode ter sobre diversos acontecimentos importantes, que vão desde a ruína de uma celebridade até a queda de governos.

Orson Welles foi o responsável por um conhecido episódio onde ficou claro o poder de sugestão da mídia. Inspirado pelo livro A Guerra dos Mundos [12] de H.G. Wells, o cineasta fez uma transmissão de rádio no Dia das Bruxas de 1938, na qual narrou com detalhes uma suposta invasão alienígena à Terra. A transmissão assustou muitas pessoas, inclusive levando algumas ao suicídio, e ganhou notoriedade como exemplo do poder do rádio.
Manipulação da opinião pública
Muitas vezes, a transmissão de informação tendenciosa é utilizada como uma forma de os governos manipularem a opinião pública. Outras vezes, curiosamente, a opinião pública é a arma que alguns órgãos usam contra o governo ou para desacreditar determinados políticos perante o povo.
No Brasil, é conhecido um controverso incidente ocorrido nas eleições presidenciais de 1989. Perto da data da eleição, a Globo, maior emissora televisiva do país, transmitiu o segundo e último debate entre os candidatos que disputavam o segundo turno, Fernando Collor de Melo e Luís Inácio Lula da Silva. Segundo pesquisas, Lula havia sido o vencedor do primeiro debate.
No dia seguinte ao segundo debate, a Globo transmitiu um resumo em seis minutos do que considerou como os melhores momentos. Para a maioria das pessoas que assistiram o debate na íntegra, a edição foi claramente tendenciosa, contrastando os melhores momentos de Collor com os piores momentos de Lula. As falas de Collor, inclusive, ocuparam um minuto e dez segundos a mais do que as de Lula na versão editada do debate.
Collor venceu as eleições presidenciais por uma pequena margem. Embora a real influência do debate não possa ser comprovada, o episódio ficou conhecido como um dos maiores exemplos de manipulação da opinião pública.
Censura e liberdade de expressão
Não há como negar que existem informações de péssima índole que devem ser controladas pelo bem da sociedade. Entretanto, sempre que se fala de controle, a palavra imediatamente associada é "censura". E sempre que se pensa em censura, pensa-se nas restrições da liberdade de expressão.
Em um episódio recente, o jornalista americano Larry Rother insinuou que o presidente Luís Inácio Lula da Silva tinha problemas com bebida, e que tais problemas preocupavam a população brasileira. Tal tipo de desinformação é grave, pois não afeta somente a imagem do presidente, mas a de todo o país perante o resto do mundo. Entretanto, a reação do governo brasileiro, que expulsou o jornalista do país, foi uma clara violação dos direitos humanos: Larry Rother vinha ao Brasil constantemente para visitar familiares.
Devemos tomar cuidado com o fato de que censura pode causar mais desinformação. Um exemplo evidente dessa possibilidade é a repressão à imprensa brasileira feita pelos governos militares após o Golpe de 1964.
Na época do governo militar, uma notícia que expressasse uma idéia remotamente negativa à respeito do governo era impiedosamente reprimida pelos órgãos de censura. Jornalistas que ousavam publicar certos fatos, verdadeiros aliás, a respeito do governo eram presos e exilados, quando não mortos.
Como conseqüência, a população era obrigada a receber somente notícias que exaltavam a competência do governo e alertavam contra a ameaça crescente do comunismo. Dentro do que era permitido aos jornais publicarem, não havia torturas e não havia injustiças. Diversos artistas e escritores tiveram suas obras censuradas, por serem considerados subversivos.
O maior problema de se censurar informações potencialmente prejudiciais é o fato de que aqueles que devem se certificar que essa censura será imposta adequadamente estão no governo. E a história provou que o governo pode ser uma das maiores fontes, se não a maior, desse tipo de informação.
Conclusão: food for thought
A sociedade atual tem à sua disposição uma quantidade de informação sem precedentes na história da humanidade. Além disso, um indivíduo da sociedade atual precisa mais do que nunca buscar conhecimentos variados para poder sobreviver. Como conseqüência, a informação nunca foi tão difundida como agora e, ao mesmo tempo, nunca foi tão perigosa.
Os problemas surgem com freqüência. Grandes quantidades de informação disputam nosso tempo cada vez mais escasso, conflitos a respeito de quais fontes de informação devem ser consideradas, ou mesmo a respeito de quais informações devem ser assimiladas repetem-se na mídia, em conversas informais e mesmo durante nossos raros momentos de reflexão silenciosa.
Não é a intenção deste trabalho sugerir soluções ou dar respostas definitivas, apenas oferecer um pouco de food for thought para que cada leitor possa refletir sobre o assunto e, quem sabe, chegar a alguma solução particular.
Assim sendo, aproveitando esta intenção, concluiremos este texto com uma pequena metáfora culinária: vivemos hoje em uma sociedade onde é muito mais fácil alimentar nossas mentes do que antes. Nossa mesa é farta: existem restaurantes de luxo, mas não faltam lanchonetes e fast-foods.
Diante desse fato, sempre haverá nutricionistas discordando a respeito de como deve ser uma alimentação saudável e balanceada. Alguns dirão que uma salada de informações pode ser indigesta. Outros, que certas informações gordurosas devem ser consumidas com cautela e até mesmo evitadas.
Uma coisa, porém, pode ser considerada como consenso: informação, não importa qual seja, não pode ser consumida em quantidades exageradas. A razão disso pode ser resumida em uma célebre frase de Millôr Fernandes:
"O cérebro é o único órgão do corpo humano que não tem aparelho excretor."
Referências
- Alvin Toffler, The Third Wave, 1980.
- Manuel Castells, The Rise of the Network Society - The Information Age: Economy, Society and Culture Volume 1, 1996.
- Manuel Castells, The Power of Identity - The Information Age: Economy, Society and Culture Volume 2, 1997.
- Manuel Castells, End of Millenium - The Information Age: Economy, Society and Culture Volume 3, 1998.
- Daniel Bell, The Coming of Post-Industrial Society, 1973.
- John Naisbitt e Patricia Aburdene, Megatrends, 1982.
- Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, 1932.
- Vance Packard, The Hidden Persuaders, 1957.
- Wilson Bryan Key, Subliminal Seduction, 1973.
- George Orwell, 1984, 1949.
- Richard Saul Wurman, Information Anxiety.
- H.G. Wells, A Guerra dos Mundos.
Comentário --mhashimo, Tue, 14 Dec 2004 21:14:45 -0300 reply
O planejamento inicial incluía uma seção entitulada "A evolução dos meios de comunicação". Devido à complexidade envolvida nessa seção, que merece até mesmo um trabalho só para ela, e da pouca relevância, resolvemos excluí-la na versão final.
